O AVANÇO DOS ESTUDOS LINGÜÍSTICOS NO BRASIL

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O AVANÇO DOS ESTUDOS LINGÜÍSTICOS NO BRASIL

Mensagem  Luiz Tadeu em Dom 25 Abr 2010, 4:39 pm

MATTOSO E O ESTRUTURALISMO NO BRASIL

Joaquim Mattoso Câmara Jr instaurou no Brasil o estruturalismo, doutrina que marcou as ciências humanas a partir da década de 1960 e que se propunha a compreender uma totalidade (no caso, a língua) como estrutura definida pela relação funcional entre seus elementos constituintes.
Embora baseada nos preceitos do estruturalismo funcional, que busca os usos e aplicações da linguagem, a obra de Mattoso Câmara Jr. apresenta traços da lingüística descritiva de base antropológica. Ele estudou as relações entre língua e cultura e entre a lingüística e a história. Percebeu que a língua não muda em bloco; cada grupo de elementos se altera em um ritmo.
Sua descrição do sistema fonológico do português dá um exemplo de capacidade analítica e coerência teórica, sobretudo abordando questões polêmicas do ensino-aprendizagem da língua. Enfrentou a questão da nasalidade, propondo a descrição de um sistema de vogais orais que podiam constituir sílaba travada por consoante nasal, contrapondo-se à tradicional divisão das vogais portuguesas em orais e nasais.
Veja-se o que diz o mestre:
O meu ponto de vista (...) é que se deve procurar esse traço distintivo na constituição da sílaba. Em outros termos: a vogal nasala fica entendida como um grupo de dois fonemas, que se combinam na sílaba – vogal e elemento nasal. (Câmara Jr., 1973: 37).
A partir disto demonstrou a diferença entre a nasalidade fonológica – distintiva; Ex: cato/canto – e a nasalidade fonética – não-distintiva; Ex: banana/muito/lama. Seguindo Malmberg, Mattoso identifica uma nasalidade por assimilação fonética e não-distintiva.
Neste plano, Mattoso trouxe realmente uma contribuição relevante, que é a fonologia com as oposições distintivas. Demonstrou que fonema não é realidade meramente fônica; senão uma realidade lingüística no sentido estrutural: o mesmo som oral pode ser fonema numa língua e pode não ser em outra, porque em uma tem oposição distintiva e em outra não tem. Em síntese, em uma língua é variante e noutra língua é fonema. Desta forma pode-se deduzir que entre o português do Brasil e o português de Portugal há variantes, mas não há fonemas distintos, opositivos.
O estruturalismo pôde auxiliar nas tarefas da filologia ou da gramática de tradição pedagógica. Gramáticas, como a do Bechara, que tiveram certo fundamento científico, aproveitaram, ainda que em parte e discretamente, o estruturalismo lingüístico.
A obra de Mattoso abrange a morfologia também, embora sem o rigor que impôs à sua tese sobre a fonologia do português (por ele tratada como fonêmica, por influência norte-americana).
A observação do signo lingüístico como uma entidade geradora de significados e sentidos permitiu-lhe descrever fatos e fenômenos gramaticais sempre se pautando nas conseqüências morfossemânticas e numa dimensão pancrônica, onde a sincronia e a diacronia se encontram em mútuo referendo.
Os vocábulos de uma língua constituem um conjunto ordenado, e o que concorre para essa ordenação é o fato de apresentarem semelhanças de forma, de sentido e de função. Daí poderem ser agrupados ou classificados levando em conta três critérios: o formal ou mórfico, o semântico e o funcional. O critério formal ou mórfico baseia-se nas características da estrutura do vocábulo; o semântico baseia-se no seu modo de significação (extralingüístico e intralingüístico), e o funcional baseia-se na função ou papel que ele desempenha na oração (Câmara Jr., 1973: 67). A aplicação desses critérios nos conduzirá às classes de vocábulos, ou seja, aos conjuntos das unidades que têm as mesmas possibilidades de aparecer num dado enunciado. (Dubois, 1973, p.108).
Segundo Mattoso Câmara Jr., o critério semântico não deve ser observado isoladamente, como acontece comumente na Gramática Tradicional. Para ele, o critério semântico e o critério mórfico se associam de forma muito estreita, pois o vocábulo é uma unidade de forma e de sentido. O sentido não é qualquer coisa de independente, ou, mais particularmente, não é apenas um conceito; conjuga-se a uma forma. O termo ´sentido´ só pode ser entendido com o auxílio do conceito de ´forma’ (Câmara Jr., 1973: 67).
De acordo com o critério morfossemântico, os vocábulos do português, numa classificação funcional, se agrupam em nomes, verbos e pronomes. Restam certos vocábulos, por Mattoso classificados como formas dependentes, em sua maioria, cuja função essencial é relacionar uns com os outros, ou entre si, os nomes os verbos e os pronomes. São os ditos conectivos, uma vez que estabelecem conexão entre dois ou mais termos. Entre os conectivos, aparecem certos vocábulos que se reportam a um nome ou pronome, cujo lugar substituem na enunciação. A gramática tradicional os denominou pronomes relativos. Ficam de fora ainda os adjetivos, os advérbios, os numerais e as interjeições.
Observe-se que adjetivos são nomes que determinam outros nomes, os substantivos. Por isso, atuam como coadjuvantes sintáticos. O mesmo ocorre com os advérbios que têm a particularidade de poder determinar até outro advérbio. Basicamente sua função é também de coadjuvante.
Os numerais podem ser vistos como um tipo-substantivo específico por identificar séries, ordens, etc. Como também podem atuar na posição determinante, figurarão também como tipo-adjetivo.
Restam as interjeições que não têm função sintática nas orações nem designam ou determinam nenhum nome ou verbo. São, portanto classe à parte. Assim como os artigos que só operam na função de determinantes.
Com base nesta interpretação da classificação dos vocábulos, tornou-se possível propor uma reordenação das classes em geral, agrupando-as morfossintaticamente, o que veio a facilitar o entendimento das relações entre as funções sintáticas e as classes gramaticais.
Do ponto de vista funcional, as classes de vocábulos podem ser diferenciadas de acordo com características sintáticas. O nome funciona como núcleo do sintagma nominal, acompanhado por determinantes e modificadores. O verbo funciona como núcleo do sintagma verbal, acompanhado por complementos e modificadores. Tomando nome e verbo como referências de classes principais e a eles acrescendo os pronomes e numerais que funcionam como substantivos, pode-se obter o seguinte quadro (cf. Macedo, 1977: 33; Barros, 1985: 98-100):


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